[Fisheye] Como tudo aconteceu

Já faz algum tempo que falei como geralmente o processo criativo funciona para mim (e você pode ler esse post aqui). Em Fisheye, as coisas não saíram tão programadinhas e bonitinhas como exemplifiquei na vez passada. Na verdade, foi uma montanha russa de emoções, com momentos que variavam entre “uau, arrasei!” e “nunca mais vou escrever na vida, eu sou uma fraaaaaude!”.

Mas não priemos cânico e vamos pelo começo. A ideia não é nova: na verdade, o brotinho do que viria ser Fisheye aconteceu no início de 2011, com um conto que comecei a escrever e nunca terminei (por pura preguiça mesmo). Como de costume, tudo aconteceu quando redescobri um cd antigo da minha mãe e passei o dia escutando Wonderful Tonight, do Clapton. Na época, eu tinha acabado de ler O Corcunda de Notre Dame e estava bastante mexida com a ideia do “feio belo” que tanto Victor Hugo trabalhou no seu romance, como também é a temática do conto “A Bela e a Fera” (que li pouco tempo depois). Foi daí que surgiu o impulso pra falar sobre crescimento.

(Obrigada, Saoirse Ronan, sua linda, por ter me inspirado durante todo esse tempo)

No ano seguinte, resolvi reaproveitar a ideia do conto inacabado e transformá-lo num romance sobre alguém que precisasse passar por uma brusca mudança na vida, para um edital da Petrobrás. Foi daí que surgiu a Ravena (que no início se chamava Christine por causa d’O Fantasma da Ópera e mudou de nome por sugestão do Diego). Já a retinose pigmentar veio alguns meses depois da primeira vez que a Ravena se sentou do meu lado e disse: “vem cá, tenho uma história pra te contar”. Eu ainda estava procurando a mola propulsora para a história acontecer, e a ideia veio durante uma conversa com uma amiga minha (oi, Karol F. <3) no shopping, durante uma agradável tarde de agosto/setembro de 2012. O foco nunca foi a RP em si, mas sim as transformações que a doença traz para a personagem. Só que deu trabalho. Muito trabalho. Não foi à toa que demorei quatro anos.

Antes de começar a história em si, me afundei em um universo de pesquisas, pesquisas e mais pesquisas. Entrei em contato com médicos, fui atrás de artigos sobre medicina que tratassem do assunto, liguei para associações de pessoas com RP, entrei em grupos no Facebook destinados ao assunto, procurei blogs e sites, visitei o Instituto Hélio Góes (conhecido popularmente como Instituto dos Cegos) e fiz até os exames necessários para detectar a doença. Todo esse processo me ajudou a não apenas entender como a doença age, mas também como é o dia a dia de quem convive com a retinose pigmentar, mesmo que um pouquinho. Tentei transferir o que aprendi com essas pessoas para a Ravena, associando isso ao crescimento dela. Foi uma imersão completa e que tá difícil de lidar agora que tudo acabou. Ficaram resquícios.

O processo da escrita foi tão sofrido quanto. Sabe o que falei lá em cima sobre picos de autoestima e baixa estima? Foi mais ou menos isso. O período mais forte de produção foi entre 2013 e 2014, permeado por muitos bloqueios criativo. Muitos. Como a história exigia uma carga extra emocional e de sensibilidade, nem sempre eu conseguia escrever. E, na maioria das vezes, eu não estava nem um pouco satisfeita.

Em 2014, quando terminei a primeira versão (e até falei sobre isso neste post aqui), praticamente olhei tudo que tinha feito e disse: “não tá legal”. Fisheye foi o livro com o qual fui mais crítica e exigente, outro motivo pelo qual ele demorou tanto tempo para ser produzido. Foram páginas e mais páginas de anotações em vários cadernos, ideias para roteiros que foram abandonadas, possíveis falas escritas em post-its espalhados pela casa, muitos e-mails trocados com a Alba (anjo da minha vida). Isso para não falar dos sentimentos controversos; ora eu achava que havia alcançado minha melhor performance, ora eu acreditava que deveria jogar tudo pro ar e viver de vender a minha arte na praia. Ainda bem que deu tudo certo no final <3

E enfim, chegamos ao financiamento coletivo. Eu já flertava com a ideia há algum tempo, principalmente porque sou uma entusiasta do Catarse e já apoiei uma série de projetos. Mais ou menos nesse tempo, eu e a Marina Avila começamos a cogitar a hipótese da Wish abraçar Fisheye como sua casa editorial, o que nos motivou a inciarmos a campanha de arrecadação. Agora é esperar o lançamento em abril <3

Espero ter conseguido sanar um pouco da curiosidade de vocês com este post! Acesse a campanha de Fisheye aqui + leia o primeiro capítulo aqui.

EDIT: me esqueci de falar um detalhe super importante! Quem de vocês ouviu falar do livro pela primeira vez quando ele ainda era Os Olhos de Ravena? :)

Sobre 2016 e umas coisas mais

(AMIGA, SE CONTROLA!)

2016 foi um ano bem ruim para várias pessoas. Para mim, em partes.

Costumo dizer que 2015 foi um ano em que eu não vivi, tanto que passou em branco na minha vida. 2016 foi o contrário, eu vivi intensamente: crises de ansiedade severas, 17 horas fora de casa diariamente, um trabalho que não me trazia nenhuma satisfação profissional ou pessoal, uma faculdade que consumia minha alma mais do que eu gostaria, e várias passagens no hospital para tomar umas injeções básicas de Fenergan. Minha pele papocou de uma forma que, em toda uma vida convivendo com TAG, nunca havia acontecido. Não gosto nem de lembrar.

Mas mesmo com essa parte bastante ruim, houve os seus bons momentos. Ter me formado e me ver livre da pressão que a faculdade é foi o ponto mais alto do ano. Eu não vi minha formatura como um momento feliz, de transição, final de ciclo ou nada do gênero: vi como uma carta de alforria que libertava grande parte do meu tempo para me dedicar a outras coisas, inclusive à minha saúde. Se eu olhar por esse lado, posso dizer com convicção que fiquei muito satisfeita por ter me formado.

E mesmo tendo de lidar com a pior crise de ansiedade da minha vida, consegui encontrar um ponto positivo nisso. Se não fosse por ela, talvez eu jamais tivesse me dado a oportunidade de me conhecer melhor. Comecei uma terapia que não apenas me respeitava, mas que também me fazia questionar várias coisas que sempre aceitei sem muita resistência. Aprendi que, acima de qualquer coisa, o mais importante é entender como você funciona e como você pode se respeitar nesse processo. Autoconhecimento foi o maior presente que 2016 me trouxe, mas não sem antes ter muito sofrimento e muito desgaste físico e emocional.

(porém, se me perguntarem se valeu a pena, ainda vou dizer que não. Preferia não ter me machucado e me maltratado tanto por causa disso)

Também não posso deixar de mencionar: ter voltado ao mundo dos livros foi muito, muito gratificante. Saber que posso escrever mais uma vez, sem a preocupação de “olha, isso não vai te dar dinheiro” e sem a pressão de ter de publicar algo novo a cada ano, trouxe uma sensação de paz que jamais imaginei. Assim como me dedicar a outras coisas na minha vida que eu sentia tanta falta, como os meus blogs, a fotografia, a literatura, o estudo de línguas estrangeiras. É um sentimento parecido com um “voltar às origens”.

No resumo: 2016 foi um ano bom? Não, não foi. Mas me trouxe muitos ensinamentos que vão me preparar não apenas para 2017, como para todos os que virão a seguir. Apesar de tanto sofrimento, me sinto tranquila por ter um pouco mais de autonomia sobre mim.

E vamos em frente.

Feliz ano novo para todos.

[Fisheye] Tudo o que você precisa saber sobre financiamento coletivo

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Uma semana atrás, comecei a campanha de financiamento coletivo de Fisheye. Ainda faltam quase dois meses para o projeto encerrar, mas já estamos com 73% da meta arrecadada! Uau! Muito obrigada, galera! Vocês são demais <3
Porém, por mais que a campanha esteja sendo um sucesso, ainda vejo muitas pessoas sem compreender direito o que estou fazendo e o que é financiamento coletivo. Por essa razão, resolvi fazer um post bem rápido para explicar isso.

Em poucas linhas, financiamento coletivo (ou crowdfunding no original em inglês) é uma arrecadação de fundos para projetos, sejam eles criativos, como é o meu caso, empreendimentos, ações sociais e por aí vai. É uma ideia baseada na economia colaborativa (saiba mais sobre isso clicando aqui), em que as pessoas se identificam com aquilo que você está propondo e contribuem financeiramente com quanto podem para tirar a sua ideia do papel. O Kickante, uma das plataformas brasileiras de crowdfunging, fez um vídeo rápido e didático sobre o assunto.

Uma das marcas do crowdfunding é a troca: as pessoas contribuem e recebem recompensas por isso, o que ajuda na conexão entre apoiadores e o seu projeto. No caso de Fisheye, por exemplo, meus apoiadores são retribuídos de formas diferentes dependendo do valor da sua ajuda: eles podem receber o PDF do livro com seus nomes nos agradecimentos; ou o livro com pôsteres, marcadores e “não-perturbe”, ou até mesmo ter o logotipo da marca deles na impressão! Quando algumas pessoas não conseguem compreender muito bem como funciona, costumo explicar que é como se você comprasse meu livro na pré-venda e, de quebra, ainda levasse uns mimos muito maneiros.

O financiamento coletivo, como deu para perceber, funciona sem burocracias. Você não precisa, por exemplo, bater na porta de bancos pedindo aquele empréstimo para a sua ideia ganhar forma – muito pelo contrário, você entra em contato direto com seu público-alvo para convencê-lo a apoiar a sua campanha. Deu para perceber que, apesar da falta de burocracia, é algo que dá um bocado de trabalho, né? É preciso suar muito a camisa para conseguir conquistar apoiadores, montar o planejamento e estar sempre online. Além de tudo isso, tem o grande fator de que nem sempre é fácil pedir ajuda. A minha diva maravilhosa Amanda Palmer foi essencial para mim no momento em que decidi fazer a campanha para Fisheye. Olha aí o que ela disse na incrível palestra dela para o TED:

Espero ter conseguido explicar um pouco mais sobre o que é financiamento coletivo e como ele funciona. E, para não perder o costume, acesse a minha campanha aqui + leia o primeiro capítulo de Fisheye aqui.

Obrigada a todos! <3

Um processo criativo nada aquariano

Que eu escrevo desde pequena, a maioria aqui sabe. Mas quando eu era mais nova, as coisas simplesmente surgiam. Nunca parei pra pensar em coisas como processo criativo, brainstorming, chuva de ideias e por aí vai (até porque eu nem tinha noção do que isso era). Eu simplesmente sentava, pegava meus cadernos e deixava o negócio rolar.

Foi mais ou menos na época em que concebi Outubro que senti uma necessidade de me organizar (comecei a escrever Outubro com 17 anos, concluí com 18). Quem leu sabe que a história é intercalada entre momentos do passado e do presente, e isso exigiu de mim um modo diferenciado de trabalhar. Eu sabia o que queria dizer e como, mas precisava encaixar as coisas de modo que tudo fizesse sentido naquela linha cronológica. Foi a partir daí que adotei as listas para nunca mais abandonar.

(Tó, faz tudo isso aê)

Não sou e nunca fui uma pessoa cartesiana, mas um pouco de organização foi necessário para que eu conseguisse transformar as minhas ideias em textos. Então, basicamente as coisas acontecem da seguinte forma:

  1. Eureka!: tudo começa com música (é sério, eu não tô brincando). Normalmente, as ideias chegam depois de eu escutar algo que funciona como um gatilho, acionando aquela área do meu cérebro que o faz trabalhar incansavelmente. Preciso assumir que viagens de ônibus são ótimas para isso, porque é geralmente sentada perto da janela, com 0 nadas para fazer, que começo a criar universos, cenas, personagens e por aí vai.
  2. Bora anotar, minha filha?: eu anoto – e muito. Se não estiver com papel e caneta por perto, preciso perturbar meus amiguinhos pelo Whatsapp (te amo, Karol!). O cérebro é falho, e já perdi muita ideia maneira por causa disso. Em Fisheye, que passou por várias alterações, saí anotando o que aparecia em qualquer coisa onde pudesse escrever (sair catando essas anotações foi o lado difícil). Essa seria a fase do brainstorming propriamente dita, que é quando as coisas chegam sem muita lapidação.
  3. Listas: e é aqui que reside todo o meu quebra-cabeça. Desde Outubro, quando adotei o método de listar o que quero que aconteça e em ordem cronológica, nunca mais abri mão desse artifício. Inclusive, eu não consigo mais começar uma história se não souber por a+b o que vai acontecer. Começo colocando uma vaga ideia do que imagino, encaixo em capítulos e vou desenvolvendo tudo bem bonitinho. É só depois desse processo que sento a bunda na cadeira e vou escrever.
  4. Os extras: me ajuda bastante montar as playlists das histórias (já disse que música é meu motor criativo, né?) e pastas no Pinterest com referências. Isso me permite visualizar os personagens (encaixando, por exemplo, rostos de atores neles – o famigerado dreamcast), coisas relacionadas àquele universo, as roupas que eles usam e esse tipo de coisa. Parece meio louco, mas é um diferencial absurdo na hora de criar. Assim como designers e desenhistas precisam de alguma base, eu também necessito – e muito – de referências visuais!
    Outra coisa muito importante: antes de desenvolver algo, dependendo do tema, estudo bastante. O maior exemplo no momento é Fisheye. Para compor a Ravena e toda a problemática em torno da doença dela, entrei de cabeça no universo da Retinose Pigmentar. Conversei com pessoas que possuem a doença, participei de grupos dedicados a debates sobre o tema, fui ao Instituto dos Cegos da minha cidade, falei com médicos, me submeti aos exames que são necessários para detectar a RP… Me aprofundar nisso me deu mais propriedade para trabalhar a doença e dar mais verossimilhança à história da Ravena.

Basicamente, é assim que a coisa funciona para mim. Não sei se alguém aqui tem um método parecido com o meu, mas gostaria muito de saber como é o processo criativo de vocês! Afinal, é sempre bacana saber como a chuva de ideias chega para cada um =)

(Obs: amigos já me disseram várias vezes, ao verem meus caderninhos de ideias, que sou muito organizada. Eles não dizem o mesmo quando entram na minha casa)

Um amanhecer diferente

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(encontrei no Pinterest e não havia o nome do fotógrafo. Quem souber, por favor me avise)

Já faz quase dois meses que saí do meu emprego. Troquei a estabilidade de trabalhar 40h semanais, com benefícios e salário assegurados mensalmente, para voltar a estudar em período quase integral e ser freelancer. Foi a decisão mais arriscada que fiz e não foi tão bem recebida a princípio. A aceitação só se deu porque falei que iria retomar meu curso de Letras na Universidade Federal do Ceará. Soou menos inconsequente.

Talvez seja a culpa desse sol em aquário ou porque não sou o tipo de pessoa que se enquadrou no modelo esperado de profissional. Gosto de trabalhar ao meu ritmo, dentro dos meus horários, vestida com um pijama velho enquanto canto Wuthering Heights a plenos pulmões e faço dancinhas estranhas. Sem maquiagem obrigatória na cara, livre para aplicar os conhecimentos que adquiri durante meus anos de estudo. Dinheiro virou sinônimo de instabilidade e economia – muita economia, principalmente se você já é emancipada. Ainda assim, acordo satisfeita como jamais fui na vida.

Levanto cedo todas as manhãs e divido meu tempo entre estudar, revisar, trabalhar como social media e… escrever. Sim, eu ainda escrevo, mesmo depois de quase dois anos renegando este trabalho por conta da sua instabilidade. Mesmo depois de ter escutado que investir integralmente nisso não seria muito inteligente da minha parte. Ao abraçar essa postura, era como se eu estivesse negando e assassinando um lado meu que sempre existiu, tentando me convencer a não levar aquilo adiante porque… Bem, eu era adulta e adultos precisam se preocupar com coisas reais. Escrever não me garantiria pagar as contas ao fim do mês, foi o que me disseram. Não importava quantos autores eu conhecesse que já levassem suas vidas tranquilamente, vivendo dos seus livros: aquilo não era para mim.

Eu acreditei nisso por muito tempo – até esse mês, quando voltei da Bienal com uma bagagem de vivências que me mostrou que talvez eu estivesse um pouco equivocada.

Viver só de escrever, na minha realidade, ainda não dá e isso é um fato – principalmente sendo autora indie, que depende das vendas da Amazon para gerar algum lucro. Mas é possível encaixar uma rotina de produção literária dentro das minhas condições. É possível acordar cedo, abrir o Word e falar: “Ok, vamos começar!”. É possível criar um plano de divulgação dos meus livros e daqueles que ainda estão por vir enquanto concilio outros jobs. Nada é tão preto no branco como eu imaginava que seria alguns anos atrás.

Eu só percebi isso depois de me violentar muito. Sentar na frente do computador cedo da manhã e ligar o Word nunca fui um prazer tão grande. Tão grande.

(Obs: não tenho a intenção de, com esse texto, propagar filosofia barata de “largue tudo e siga seus sonhos”, porque a realidade é bem diferente do que dizem os empreendedores de palco. Eu reconheço que, apesar das minhas dificuldades, sou privilegiada por optar por esse tipo de vida. Esse aqui foi apenas um relato puramente pessoal)