[Manuscrito] O que um ano sem escrever me fez

Falar sobre escrita é como se eu expusesse páginas pessoais de um diário. Só agora consigo entender e descrever esse sentimento que me deixa ligeiramente desconfortável. Escrever e colocar no mundo é se expor, mas falar sobre esse processo é algo ainda mais intenso – e até incômodo. É como jogar luz sobre segredos. E, por isso, não é à toa que eu acabo me embolando quando converso sobre o assunto.

Não me leve a mal. É que escrever é atividade antiga e íntima na minha vida. Nasceu de uma infância que foi solitária em sua boa parte, assim como o ofício o é. Só na adolescência, naquela fase em que a gente precisa se definir e se encontrar de alguma forma, que resolvi transformar o diário em publicação. Eu queria ser reconhecida pelo título: escritora. E busquei por muito tempo obter minha validação merecida, a identidade que tanto procurava.

Mas foi a pressa que me jogou em um buraco.

Um ano e meio de bloqueio

Até hoje, 2019, eu não tive nenhuma publicação tranquila. Ansiosa como sou, troquei as mãos pelos pés e fiz péssimas escolhas. “Vai ser diferente da próxima vez”, eu me dizia. Me lembro desse momento como aquele ótimo quote de Alice no País das Maravilhas, por sinal o livro da minha adolescência: “Eu me dou conselhos muito bons… mas muito raramente os sigo.”

O último trabalho foi o mais traumático, porque foi o mais intenso e o mais desacreditado, até mesmo por quem estava trabalhando comigo. Pessoas que, em tese, deveriam me ajudar chegaram a me dizer coisas bem ferinas. Foram palavras que acabaram entrando onde não deveriam, envenenando aquela que eu julgava ser a melhor planta do meu jardim. No final de 2016, olhei para um papel em branco e senti que não sairia nada de mim. Não mais.

Passei um ano tentando fugir dessa realidade. Levava para a terapia, insistia nas páginas em branco, conversava com as pessoas esperando desesperadamente que a resposta chegasse de fora. Posts e mais posts no blog tentando justificar o que me parecia na época injustificável. “A quem eu estava tentando agradar”, perguntou minha professora querida, pergunta essa que só vim entender hoje, tanto tempo depois. Foi muito murro em ponta de faca. Tanto que tal hora eu cansei. Cansei e me deixei vencer. Me deixei levar.

Durou um ano e meio de silêncio interno.

As pequenas partes

Havia um espaço vazio que precisava ser preenchido. No início de 2018, resolvi deixar de lado a necessidade de voltar a escrever e fui atrás de coisas um pouco mais palpáveis. Talvez, uma dose extra de realidade. Procurei por grana. Entrei em alguns freelas, voltei a cuidar da saúde, resolvi reformar a casa. Pintei as paredes da sala, fiz estantes para meus livros. Aprendi a fazer cookies, experiência essa que me foi verdadeiramente importante. Passei julho de 2018 inteiro cozinhando biscoitos e alimentando os meus amigos com eles. No meio tempo, investia nas redes sociais para vender o Fisheye, estratégia essa que deu, e tem dado, muito certo. Comecei a fazer um caixa com o dinheiro que entrava para recuperar o prejuízo causado pela minha pressa. Hoje, estou bem perto da minha meta.

Em agosto de 2018, fui convidada para um projeto bem interessante e me vi obrigada a voltar a escrever – com a diferença que, dessa vez, era negócio realmente remunerado. Era salário, era comida entrando em casa. Não falei para meus empregadores sobre meu bloqueio, só senti que precisava encará-lo e seguir. E fui, alternando os dias na empresa com aulas de balé das quais sinto muita falta e desejo retomar. Nesse meio tempo, resolvi me arriscar e viajei para a Paraíba, para um evento geek que pode ser definido também como um antes e um depois. Porque foi lá que eu tive uma dimensão real que aquilo que eu construía fazia diferença, tocava o outro. Voltei para casa me sentindo revitalizada, embora não pronta para escrever. Eu só sabia que, quando voltasse, não seria mais a mesma coisa. Precisava de um novo significado, de um novo sentido.

O inconsciente fala

Recentemente, sonhei com os personagens de Fisheye mais velhos, já bem distantes da adolescência retratada no livro. Eles estavam bem, muito bem. Seguiam suas vidas como eu imaginei que seguiriam após o fim da história. Mas foi a certeza de que esse sonho ia muito além do vislumbre feliz de Ravena e Daniel que me fez acordar em paz. Era como se meu inconsciente estivesse me dizendo: “você está superando.”

Se eu fizer um balanço geral, posso dizer que, apesar de ter uma conotação negativa, o bloqueio me foi necessário. Foi bom, embora não menos doloroso, passar por uma experiência tão intensa como essa. Seria mais difícil perceber as pequenas coisas que me compõe além da escrita, para parafrasear o meu querido Bruno Bianchi, se eu não tivesse passado tanto tempo estéril. Descobri que faço ótimos cookies e que a elasticidade do meu corpo é muito boa, apesar de eu estar mais perto dos trinta. O primeiro espacate a gente não esquece. Minha casa, ainda que bagunçada, está bem mais bonita com a parede preta e quadros de artistas que admiro tanto. Voltei a ler com a voracidade de quem quer aprender, de quem precisa analisar o mundo por um viés mais crítico. Saí com amigos, entrei em um canal do Youtube, conheci pessoas novas. Comecei a estudar o tarô, percebi que faço fotos legais. Na verdade, eu faço muita, muita coisa.

Escrever é só uma delas. É só mais um detalhe dentre tantos outros que me moldam.

Um texto que não tem função alguma

Voltei a escrever nesse ano, mas também voltei àquele nível esquisito de me sentir expondo partes verdadeiramente íntimas de mim quando falo a respeito. Talvez, a criança que era tímida para mostrar seus escritos também tenha retornado em algum ponto. Talvez, eu só encare o ofício de novo como aquela brincadeira de infância para fugir da solidão. Criança brinca sério. É leve, e também é sério.

E no fim das contas, este post foi apenas para encerrar a série de textos e mais textos neste blog de uma Kamile que não conseguia se entender consigo mesma. Provável que seja o último sobre o assunto por um bom tempo. Eu realmente não esperava que a timidez também desse as caras por aqui.

A vida é mais leve quando não damos murro em ponta de faca e quando seguimos os bons conselhos que damos a nós mesmos, como bem diria a Alice. Soltar também faz bem.