[Diário] “Eu sinto falta de escrever…”

“… mas de uma forma que você sente falta de alguém a quem costumava amar”

Para quem não sabe, essa frase foi dita por John Green. O vídeo em questão onde ela aparece é esse aqui:

Eu gosto bastante do John Green, e vê-lo admitindo o seu bloqueio de forma tão sincera aos seus leitores me doeu de duas formas: a primeira como fã, que sentirá saudades caso ele continue nesse hiato por tempo indeterminado. A segunda, como escritora que passa pelas mesmas crises e questionamentos.

Minha relação com a escrita sempre foi muito passional. Como meu amigo disse, funciona de maneira terapêutica. Comecei a escrever porque era uma criança sozinha e tinha lápis e papéis para me distrair, isso não é segredo para ninguém. Durante muito tempo, escrever era algo meu, só meu. Quando passei a cogitar em uma carreira como autora, precisei abrir mão de algo que eu escondia tão bem. Mais do que histórias, meus livros são pequenos fragmentos da minha alma que caem nas mãos dos leitores. Vai muito de mim, e tudo por causa dessa relação antiga.

O grande problema começou a acontecer de alguns anos pra cá, mais ou menos quando dei meu primeiro grande hiato da vida por causa de faculdade e trabalho. Um sentimento de culpa começou a pesar, porque passei dois anos me dedicando a Fisheye, dois anos revisando-o quando a minha vida me permitia. Comecei a pensar: “cara, isso tá errado”. Não produzi nada novo, demorei muito tempo e passei a me cobrar por essa ausência. Por não ter tempo de escrever como era antes.

Saí do trabalho, terminei a faculdade e disse: “ok, agora é a hora”. Me pressionei para ser mais produtiva, para demorar menos nas minhas coisas – e me enfiei no pior bloqueio da minha vida.  Passei a realmente odiar o que estava fazendo e entrei num ciclo de frustração que só me derrubava. Quando as pessoas me perguntavam: “e o próximo livro?”, me dava um nervoso . “Ah, a vida tá muito corrida”, e dava um sorriso amarelo. Houve dias em que chorei um bocado, tentando entender o que havia acontecido.

A resposta não demorou a aparecer depois de algumas longas sessões com a minha terapeuta (mozão). De repente, escrever não era mais fruição, uma forma de liberdade que encontrava desse mundo caótico: escrever era obrigação.

Compreender como funciona a escrita para mim me fez entender o que andava acontecendo de errado comigo: não sou uma pessoa que produz uma história (quando comecei a chamar de livro, percebi também que isso era mais um bloqueio) em menos de um ano. E, antes do processo escrito, preciso de muitas viagens de ônibus para conceber cenas e personagens. Também não escrevo todos os dias, ainda que estude sobre o assunto e tente ler livros com um viés mais analítico. Sei que isso é uma coisa que vai totalmente contra o que os gurus pregam, mas o que posso fazer? Me condicionar a um processo que me deixou frustrada e, principalmente, infeliz? O máximo que faço é me dedicar ao diário, e nem é sempre.

E, bem, talvez meu objetivo de vida não seja viver unicamente da minha escrita criativa (o que ainda é uma realidade bem complicada no Brasil, fator esse que somou alguns pontos na minha frustração). Escrever é apenas uma das muitas coisas que eu faço, embora seja a que mais envolve paixão e a qual mais me doo. Não é à toa que eu ainda brinco com fanfics.

Então é isso: talvez vocês demorem a ver algo novo meu, talvez não. Talvez eu seja grandiosa, mas está tudo bem se não rolar. Estou feliz com o meu caminho tortuoso, porém, agora, cheio de satisfação.

Escrever não deve ser mais uma tortura para mim. E nem para ninguém.

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