Memórias de escrita

No meu perfil (clique aqui para ler), falei rapidamente sobre como entrei no universo da escrita. Não tem muito segredo: escrever era a minha diversão. Imaginativa como eu era, passava horas desenvolvendo histórias com as minhas bonecas e as transcrevia para o papel (às vezes, para o computador). Eu gostava de imaginar, sonhar acordada, de cadernos e folhas escritas à mão. Foi assim na infância, foi assim na adolescência. Ainda tenho os cadernos onde registrei minhas primeiras histórias, uma mistureba geral dos animes que assistia e dos mangás que lia.

Eu não tinha muita vontade de me profissionalizar. Escrever era, acima de tudo, algo meu. Era minha forma de espairecer, de sair do meu universo comum e entrar em outra realidade, sob outra pele. Era pessoal demais, tanto que não era para todo mundo que eu mostrava o pouco que rabiscava (minha mãe só leu Yume quando ele já foi publicado). A ideia só surgiu quando eu tinha 15 anos e pedi, morta de vergonha, para que minha professora de português da época (e atualmente grande amiga) desse uma lida no que, anos depois, virou Yume. A Isolda foi minha primeira incentivadora a levar aquela ideia adiante, que comprei assim que entrei no terceiro ano e não sabia o que queria ser no futuro.

Escrever está há muito tempo na minha vida. Mas não me considero talentosa por isso, nem mesmo acho que tenho um dom. Fico meio envergonhada quando as pessoas me dizem “você tem um dom lindo”. Não foi uma coisa divina, sabe? Eu só era uma criança solitária que precisava de um escape para se divertir. Como eu gostava de histórias, passei a criar as minhas e isso ocupava o meu tempo. Costumo dizer que tudo aconteceu porque sempre tive uma pré-disposição para o ofício e boa vontade. E de lá para cá, o que mais aconteceu foi esforço.

Passei a ler não apenas pela fruição, mas também observando o que aquele escritor tinha que tornava sua narrativa tão cativante e maravilhosa. No início, eu gostava de imitar a forma de escrever de algumas escritoras de fanfics de Naruto. Isso me ajudou a desenvolver a minha narrativa, aquilo que diz: “ok, esse texto é da Kamile”. Quando entrei na faculdade de Letras e passei a estudar teoria literária e gramática pura, um universo de possibilidades surgiu. Estudar literatura e português abriram a minha mente também para o que eu queria para a minha escrita, e comecei também a estudar assuntos voltados especificamente para a escrita criativa: como fazer uma boa estrutura narrativa, como descrever bem, o que é a jornada do herói, e daí por diante. Mesmo com três livros publicados, sei que o aprendizado é eterno. Não sou uma escritora pronta e nunca vou ser. A gente tem sempre que se renovar, se dedicar e estar aberto a aprender.

Por essa razão, não acredito em dom ou talento. Não acredito porque, quando olho para trás, vejo a quantidade de livros lidos e anotações feitas; a série de arquivos word abandonados, porém salvos para análises posteriores; os cadernos escritos e cheios de rasuras; os livros sobre literatura acumulados na estante. Ser artista é isso: é estudo, é dedicação, é força de vontade, é empenho. Nenhum ser superior me presenteou com a escrita, eu que corri atrás dela.

Nesse dia do escritor, que fique aqui a mensagem: ninguém nasce escritor, ninguém é abençoado por uma fada madrinha com o talento. Mas o estudo, a leitura e o treino podem oferecer essa habilidade a quem quiser começar a narrar as suas histórias. É um trajeto árduo, sofrido e longo, porém o que na vida vem sem esforço ou trabalho, não é mesmo?

Um feliz dia do escritor para todos os meus colegas de luta! :)

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