[Diário] Sobre o Sana, primeiras vezes e Asian Kung Fu Generation

Na primeira vez que fui ao Sana (Super Amostra Nacional de Animes, que acontece em Fortaleza), eu tinha apenas doze anos e, como qualquer pré-adolescente da minha idade, não me encaixava lá em muita coisa. Naquela época, nerds – em especial, os otakus – não eram as pessoas mais bem-vistas da escola. Ir a um evento que concentrava não apenas vários produtos de cultura oriental, como também várias pessoas similares a mim, foi uma revolução. Eu, pela primeira vez, começava a me encontrar em algum lugar, e não foi à toa que o Sana virou o evento mais esperado do ano para mim. Era coisa de juntar cada centavo e contar os dias.

Um pouco mais tarde, usei cosplay pela primeira vez no Sana. Fiz da Tenten, personagem do Naruto com quem me identificava, e precisei superar uma timidez severa para entrar na roupa que havia ganhado de aniversário. Por muito pouco, quis desistir da experiência, e foi um sopro breve de coragem que me fez aceitar os odangos no cabelo e dar a cara a tapa como cosplayer. Eu tinha apenas catorze anos.

(Não é minha melhor foto do dia e eu já estava bem cansada. Mas vale o registro)

Nessa época, eu já escrevia. Gestava lentamente o que virou Yume anos mais tarde, mas a mesma timidez me impedia de mostrar as poucas páginas escritas para além de um punhado de dez amigas no máximo. Síndrome do impostor sempre foi algo que me acompanhou, e na adolescência isso era ainda mais intenso.

2017, vinte quatro anos “nos côro”. Dez anos da foto aí de cima. Não uso mais cosplay há um bom tempo, embora ainda tenha uma vontade bem “leve” de me vestir de Mary Poppins, e não acompanhei o final de Naruto. Também já não vou ao Sana (que não é mais um evento exclusivamente de anime) com a frequência de antes. Muitas das coisas que a Kamile de 2007 sonhava viraram desejos de adolescente e apenas isso, enquanto outras que jamais passaram pela cabeça dela se tornaram realidade. Concluir um livro foi uma delas. Publicar um trabalho também.

A convite dos rapazes da S1 Produções e da Fábrica do Mito (meus agradecimentos nunca serão suficientes para tudo que vocês fazem por mim), levei Fisheye ao Sana. Quem me via sentadinha à mesa da sala de Game of Thrones, toda sorridente e dando bom dia, jamais poderia imaginar que eu me tremia por debaixo da toalha. Que eu não havia dormido direito na noite anterior por causa da ansiedade. Que eu não sabia se deveria ou não abordar a pessoa que parava para olhar os desenhos do livro. Deu certo no final das contas e o saldo foi muito positivo. Vários livros saíram das minhas caixas e pararam em estantes de novos leitores.

(Mesa no primeiro dia)

E por que estou falando tudo isso? Porque parece surreal como um evento como o Sana está tão ligado a minha história. Eu cresci dentro do Centro de Convenções (Sana raiz) como uma frequentadora, apaixonada por cultura japonesa que só tinha o evento para encontrar produtos e anime, e hoje retorno para lá como escritora. Se dez anos atrás eu tentava superar a minha timidez usando cosplay, algo que foi necessário para o meu crescimento, nesse ano levei o meu trabalho para divulgar. O local para onde comecei ir com doze anos virou um ambiente que frequento para falar sobre o meu livro.

(Foto do Diego Hirose, do Portal Mie)

Pode não parecer muita coisa, mas foi muito significativo para mim. Enquanto eu via o show do Asian Kung Fu Generation (para quem não conhece, banda que toca uma das mais famosas aberturas de Naruto), eu não parava de pensar nisso. Não parava de pensar na Kamile de 2007, com sua roupinha de Tenten e os odangos na cabeça, e na Kamile de 2017, carregando uma bolsa pesada com os livros que restaram da vendinha (cinco no total). Ao ouvir Haruka Kanata e sentir a pele arrepiar, refletia na felicidade que parecia explodir dentro de mim. Eu sorria de orelha a orelha.

Às vezes, a gente consegue encontrar um lado bom em crescer.

Comments

  1. Kami, parabéns por quebrar os paradigmas e dares os passos que ao mesmo tempo amedrontam, libertadores são! Ficamos bem felizes ao sabermos dessa grande realização. Um abraço carinhoso, Jac e Hélder

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