O abuso do computador

Tem dias que eu olho pro computador e tenho abuso.

É natural que aconteça algo do tipo com quem trabalha integralmente com a ferramenta. Sento de frente para ele sete horas da manhã e às vezes estico até de noite. Ora sou do design, ora sou da revisão/redação. E conforme vou trabalhando, cansando o cérebro, a vontade de escrever entra num buraco negro e atravessa universos alternativos que eu nem sabia que existiam.

Tento ser um pouco mais maleável comigo mesma. “Vai fazer outra coisa, mulher. É só um momento”. Mas mentes criativas costumam se culpar quando não criam e não produzem. E ao mesmo tempo em que estou cansada, fico aflita por não estar criando, estudando, fazendo qualquer coisa. É um ciclo sem fim, que mina minha produtividade e me deixa exausta. As coisas pioram quando não escrevo nada.

Ano passado e no início desse ano, mal pude escrever. Isso me fazia me sentir ainda mais culpada, mais infértil e mais frustrada, principalmente quando via outros colegas de profissão (tanto do design quanto da escrita) produzindo em escala quase industrial. Cheguei a pensar se as coisas funcionavam realmente assim para meus colegas, se eles conseguiam escrever sempre com o mesmo ânimo e o mesmo ardor apaixonado que demonstravam via redes sociais. Eu me frustrava mais ainda por não me sentir assim.

Era como se eu não tivesse uma razão para existir. Demorou um bocado eu compreender que tá tudo bem não ter saco para verbalizar nenhuma das cenas que maquino na minha cabeça. Que não tem problema eu adiar um livro novo porque concluí um há pouco tempo e ainda não estou pronta para respirar aquele mais recente universo. Ou que é bom ficar longe do computador e dormir com o celular no modo avião. Não tem problema eu arrumar o quarto quando estou sem saco para trabalhar com a minha criatividade, ver Netflix, sair com os amigos, passar um tempo com o namorido ou mesmo bater perna sozinha e ir na minha cafeteria favorita. Ainda não internalizei muito bem essa convicção, mas estou me esforçando. O cérebro precisa respirar.

E não há mal algum nisso.

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