[Diário] Nova série: a saga do corpo

Nesse ano, resolvi tentar perder peso. Tenho uma série de fatores para isso: pés doloridos, autoestima que não tá muito legal, roupas encalhadas no guarda-roupas (dinheiro pra comprar as “brusinhas” não tá nascendo em árvore, minha gente). Como essa não é uma batalha muito fácil, quis compartilhar aqui no blog não apenas essa saga, mas também a minha sempre conturbada relação com o meu corpo.
Eu não quero, sob hipótese alguma, receber mensagens de incentivo (“vai, você vai conseguir!”) ou relembrar que sou linda e empoderada. De alguma forma, os dois lados da moeda estão me fazendo mal: o primeiro porque as pessoas reafirmam que há algo de errado comigo, quando eu sei que não há, o segundo porque é frustrante não me ver do jeito que as pessoas me enxergam. Minha intenção com essa série é compartilhar experiências e impressões.
Pra começar a história, vou colar aqui um post desabafo que fiz no início do ano passado.
Espero que vocês gostem.

 

(Kamile aos 15 anos. Ache o erro nessa foto)

Ano passado, fiz uma ressonância magnética do joelho. Em julho, dei algum jeito nele e isso deflagrou uma dor absurda, que tem ficado mais intensa com o correr dos dias. Resultado na mão, descobri que minha cartilagem está amolecida e um dos prováveis motivos foi meu ganho excessivo de peso.

“Mas, Kami, por que você não perde peso? Isso é fácil de resolver, não?”

Alguns de vocês devem pensar que é falta de força de vontade ou mesmo preguiça para me exercitar. Bem, não é, sinto em dizer. Esse é o cansaço de uma vida inteira sendo cobrada para entrar dentro de um padrão. Vamos começar deixando bem claro que jamais fui magra e esse negócio de “perder peso” me dá nos nervos. Sempre fui muito cobrada para perder os quilos extras. Na infância, inclusive, estive perto de ter obesidade infantil, o que minha mãe não esperou muito para cuidar. Após alguns meses de dieta, entrei num peso normal e saudável para a minha idade e erradiquei o risco. Mesmo assim, com a saúde nos eixos, mantive uma barriguinha, o que me classificou como “gorda” pelo resto da vida – muito ressaltada pela minha família, diga-se de passagem.

Essa classificação me persegue até hoje.

Atualmente, estou novamente batendo às portas da obesidade e a cobrança por perder peso se tornou maior. Não, é claro, pelo meu joelho fodido ou minha respiração ofegante. Ninguém liga muito pra isso. É pela pessoa que estou mesmo – essa garota gordinha, cheia de pneuzinhos, com a barriga saliente e algumas estrias. Minha imagem incomoda. Em momento algum, as pessoas que me cobraram uma aparência à modelo Victoria’s Secret pensaram no meu bem estar físico. Era a questão da aparência que importava. Já ouvi algumas vezes: “você tem um rosto lindo, por que não perde peso?”

Parece que não posso ser bonita sendo quem sou, não é?

Sendo bem sincera, não tenho nem genética e nem porte físico para ostentar um corpo padronizado. Meu metabolismo, inclusive, é lento demais. Porém, como já falei lá em cima, fui cobrada durante a minha vida inteira para entrar dentro desse padrão e necessitei da aprovação alheia para me sentir um pouco bonita. Desde que me entendo por gente, as pessoas comentam minhas gordurinhas, meu excesso de carne, minhas curvas. Sempre falam: “nossa, você engordou!” num jeito claro de falar: “que tal perder peso, heim?”. Quando fiz minha redução mamária em 2014, a primeira coisa que escutei de um parente foi: “você tá bem mais gorda do que da última vez que eu te vi”. Exatamente isso. Não me perguntou sobre minha recuperação, sobre minha cirurgia e nem comentou o resultado positivo da mudança. A questão foi o tamanho da minha barriga e dos meus braços mesmo.

Minha resposta: “bom, acabei de reduzir os seios e adorei o resultado.”

Outro caso: recentemente, reencontrei um velho colega de faculdade. Ele disse que eu estava parecendo uma senhora inglesa dos romances do século XIX. Como estou numa vibe meio Jane Austen, levei como um elogio, até que ele falou: “eu lembro que você era bem mais magrinha”. Mantive o bom humor e afirmei que o estresse afetou bastante o meu peso (o que não deixou de ser verdade). E ele rebateu: “mas estresse não faz isso com uma pessoa”.

Essa cobrança me afetou negativamente. Esse tipo de comentário era o que me deixava lá embaixo. Eu aprendi a me odiar durante uma vida inteira. Aprendi a não gostar da imagem que vejo no espelho, não importa se meu cabelo estiver bonito ou se minha maquiagem estiver bem feita. E isso dói. A maior crise foi durante a minha adolescência – ah sim, vocês sabem como esse período é na vida de uma menina. Hoje, olho para trás e vejo o quão infundada era a minha paranoia para ser magra. Eu tinha um corpo  bacana para minha idade e meu peso estava no limite certo. Mas havia essa coisa de: “quando você emagrecer”… Eu não precisava disso! Se o problema era minha barriguinha saliente ou meus seios – que sempre foram grandes por conta da genética -, sinto em dizer que não eram problemas reais. Eu era uma adolescente saudável como qualquer outra.

Só que, como uma adolescente, acreditei no que me diziam. E a ideia se enraizou de uma forma que eu comecei a me negar coisas que gostava como “não posso fazer esse cosplay porque não sou magra”. “Não posso comer chocolate porque engorda. É errado comer coisa gostosa”. Cheguei a um nível de me sentir inferior como pessoa a garotas magras, estilosas, que conseguiam entrar dentro de seus jeans tranquilamente. Inclusive, achava que não conseguiria paquerar ou arrumar um namorado porque eu era “gordinha”. O resultado disso? Uma autoestima muito baixa e que não se restringe apenas à questão da aparência. Isso trouxe infinitas inseguranças na minha vida.

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Hoje, percebo que não existia problema nenhum em ser como eu era quando tinha quinze anos. E que eu também não preciso ser magra para agradar uma pessoa que não consegue comentar sobre nada sobre mim além do meu peso. Demorei uma vida inteira para notar isso e conseguir enxergar alguma beleza na minha imagem; para ganhar alguma segurança sobre meu reflexo. Não estou cem por cento e acredito que nunca estarei, mas garanto que já consigo achar meu rosto legal, meu cabelo bacana. Como disse uma conhecida: “é uma batalha diária”.

Eu serei hipócrita em dizer que me aceito da forma como estou. Não, não gosto muito de como estou agora e não pretendo ficar assim. Quero voltar a caber dentro de umas peças de roupa que estão há muito tempo paradas e não quero sentir mais dores nos meus pés. Mas a grande diferença da Kamile de agora com a de antigamente é que, atualmente, eu sei que posso fazer as coisas no meu tempo, da minha forma e quando eu quiser. Eu sei como funciono. Agora, me sinto capaz de não pirar e de não querer ou esperar pela aprovação alheia. Não vou me sentir culpada por comer um brigadeiro e também não vou dar importância se me condenarem por estar usufruindo um pouco do prazer que um doce trás. E, principalmente, não vou me sentir mal se me disserem que estou gorda. Gorda não é xingamento. Estar gorda não me torna inferior a qualquer pessoa. É apenas o meu corpo, e meu corpo não é algo do qual eu deva ter vergonha.

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