Um amanhecer diferente

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(encontrei no Pinterest e não havia o nome do fotógrafo. Quem souber, por favor me avise)

Já faz quase dois meses que saí do meu emprego. Troquei a estabilidade de trabalhar 40h semanais, com benefícios e salário assegurados mensalmente, para voltar a estudar em período quase integral e ser freelancer. Foi a decisão mais arriscada que fiz e não foi tão bem recebida a princípio. A aceitação só se deu porque falei que iria retomar meu curso de Letras na Universidade Federal do Ceará. Soou menos inconsequente.

Talvez seja a culpa desse sol em aquário ou porque não sou o tipo de pessoa que se enquadrou no modelo esperado de profissional. Gosto de trabalhar ao meu ritmo, dentro dos meus horários, vestida com um pijama velho enquanto canto Wuthering Heights a plenos pulmões e faço dancinhas estranhas. Sem maquiagem obrigatória na cara, livre para aplicar os conhecimentos que adquiri durante meus anos de estudo. Dinheiro virou sinônimo de instabilidade e economia – muita economia, principalmente se você já é emancipada. Ainda assim, acordo satisfeita como jamais fui na vida.

Levanto cedo todas as manhãs e divido meu tempo entre estudar, revisar, trabalhar como social media e… escrever. Sim, eu ainda escrevo, mesmo depois de quase dois anos renegando este trabalho por conta da sua instabilidade. Mesmo depois de ter escutado que investir integralmente nisso não seria muito inteligente da minha parte. Ao abraçar essa postura, era como se eu estivesse negando e assassinando um lado meu que sempre existiu, tentando me convencer a não levar aquilo adiante porque… Bem, eu era adulta e adultos precisam se preocupar com coisas reais. Escrever não me garantiria pagar as contas ao fim do mês, foi o que me disseram. Não importava quantos autores eu conhecesse que já levassem suas vidas tranquilamente, vivendo dos seus livros: aquilo não era para mim.

Eu acreditei nisso por muito tempo – até esse mês, quando voltei da Bienal com uma bagagem de vivências que me mostrou que talvez eu estivesse um pouco equivocada.

Viver só de escrever, na minha realidade, ainda não dá e isso é um fato – principalmente sendo autora indie, que depende das vendas da Amazon para gerar algum lucro. Mas é possível encaixar uma rotina de produção literária dentro das minhas condições. É possível acordar cedo, abrir o Word e falar: “Ok, vamos começar!”. É possível criar um plano de divulgação dos meus livros e daqueles que ainda estão por vir enquanto concilio outros jobs. Nada é tão preto no branco como eu imaginava que seria alguns anos atrás.

Eu só percebi isso depois de me violentar muito. Sentar na frente do computador cedo da manhã e ligar o Word nunca fui um prazer tão grande. Tão grande.

(Obs: não tenho a intenção de, com esse texto, propagar filosofia barata de “largue tudo e siga seus sonhos”, porque a realidade é bem diferente do que dizem os empreendedores de palco. Eu reconheço que, apesar das minhas dificuldades, sou privilegiada por optar por esse tipo de vida. Esse aqui foi apenas um relato puramente pessoal)

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