[Diário] Multifacetada

Não lembro em qual momento da minha vida declarei para a minha mãe que eu gostaria de ter uma dupla formação acadêmica. Também não lembro em qual instante desisti dessa ideia porque ela parecia completamente inviável (se não me engano, foi no terceiro ano do ensino médio. Já perceberam que esse período foi um mar revolto para mim, não?) Minha mãe me apoiava, porém. Ela enchia o peito de orgulho quando eu mostrava a infinidade de assuntos pelos quais me interessava. Eu gostava de moda, de design, de história, de línguas e literaturas. Era uma adolescente que se identificava com várias áreas que, por uma graça quase divina, conseguiam se interligar.
Estou no início da minha vida adulta e percebo que nada, absolutamente nada, mudou.
Passei dois anos cursando Letras Português com aquela sensação de vazio. Eu me sentia infeliz, embora adorasse acordar cedo para ir numa aula de Teoria da Literatura, Literatura Portuguesa ou Literatura Brasileira. Sempre gostei de estar cercada de livros e xérox (embora, assumo, eu sempre me desesperasse com a quantidade infinita de coisas para ler), mas não era o suficiente. Eu conversava com outras pessoas, via a felicidade e a realização delas em seus caminhos e pensava: “o que está faltando para mim?”, “por que não sou feliz assim, mesmo em um lugar com o qual me identifico?”. Passei por um momento de crise existencial, daqueles tipos que costumam assolar jovens que dão os primeiros passos no mundo nada glamoroso dos adultos. Assumi várias responsabilidades muito cedo e me bateu um desespero: “como vou dar conta de tanta coisa estando tão vazia e tão sem perspectivas?”
Hoje entendo o meu problema – ou solução. Sou multifacetada.
Entrar no design foi uma realização sem medidas para mim. Assumir minha dupla paixão por linguagem verbal e visual retirou um peso de uma tonelada das minhas costas. Percebi que não nasci para ser designada a uma função apenas, que gosto (e tenho orgulho) de fazer de tudo um pouco. Me realizo escrevendo, lendo, revisando, assim como trabalhando no Photoshop, no Illustrator, no Indesign. Amo livros, amo projetos gráficos, editoração, websites, literatura. Às vezes é complicado assumir tantas responsabilidades, casar áreas que, a uma primeira olhada, parecem divergentes, mas jamais senti uma felicidade tão completa. E esse sentimento de completude cresce quando encontro relatos de pessoas que tomaram decisões similares e não se definiram em apenas uma função (quer exemplo maior que os renascentistas, que tinham habilidades em várias áreas?)
Não tenho problemas em assumir que não sou unicamente escritora, estudante, aprendiz de designer ou dona de casa que dá os primeiros passos. Não pretendo, também, me prender apenas a uma área ao longo da minha vida. Sou composta de pequenas peças de cores variadas e me orgulho disso. Vez ou outra, encontro alguém que torce o nariz para minhas decisões – afinal, somos acostumados a ver pessoas seguindo apenas um caminho, usando antolhos imaginários e não se permitindo ousar, testar outras possibilidades. Em algum momento da história humana, podamos essa chance de sermos multi. Não perdermos essa oportunidade, porém. Podemos assumir essa variedade de faces, essas paixões avassaladoras. O que falta é apenas se permitir, arrancar de si as amarras que o cotidiano acelerado da vida moderna nos impôs.
Eu não me arrependo de ter me libertado. E nem imagino que venha me arrepender algum dia.

Comments

  1. Nossa! Somos muito parecidas, eu não consigo me ver fazendo uma coisinha só, quero publicar livros, pintar telas, desenhar, fazer esculturas, estudar astronomia, tuuuuuuuudo.
    Também estou sofrendo com essa jornada e seu texto me deu forças <3

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *