[Diário] A incrível arte de escrever à manivela

Ano passado, fui na palestra de um escritor bem conhecido na bienal daqui do Ceará. Não citarei o nome dele, apenas direi que é alguém cujo trabalho muito admiro e em quem tento me inspirar. No meio da conversa bem descontraída, ele soltou esta frase: escritor profissional precisa escrever todos os dias. Devo informá-los que, na época, meu estado de espírito e eu estávamos em completa dissonância. Eu até queria ficar feliz, mas havia um diabinho ao meu lado que me revestia de preto diariamente, afastando qualquer bom sentimento de mim. Digamos que eu estava meio… meio Charlie, de As Vantagens de ser Invisível.

Voltando ao ponto inicial. Aquela frase me chocou e me atingiu como um tiro de fuzil. Se há alguém que não consegue manter a musa inspiradora ao lado por pelo menos quatro horas todos dias, essa sou eu.  Preciso mandá-la passear por aí, dar uma volta no centro da cidade, ver o Bode Ioiô no Museu do Ceará, tomar um cafézinho num local legal ou coisas do gênero. Mas eu não consigo escrever todos os dias. Simplesmente, não dá.
E aí, fiquei pensando em tudo que já fiz até hoje (duas histórias completas e várias inacabadas, ê!). Para escrever Yume (nota: concebi o plote de Yume aos catorze anos), precisei levar três anos e alguns meses, desde a ideia para os primeiros capítulos até a concretização do livro em si. Além do fato da minha musa inspiradora ser uma badaleira de primeira, sempre fui estudante. Consequentemente, sempre estive lotada de coisa para estudar e trabalhos para fazer. No tempo de Yume, eu estava no Ensino Médio. Era claro que eu não conseguiria me dedicar a escrever todo santo dia que o bom Deus dá porque minhas obrigações no colégio falavam mais alto. Eu precisava passar de ano – e, no terceiro ano, precisava passar no vestibular.
Por essas e outras, levei três anos.
Aí veio Outubro. Outubro surgiu na época em que eu estava no Ensino Fundamental II (na antiga 7ª série) e minha experiência com escrita era abaixo de 0. Se para Yume eu estava despreparada, não digo nada sobre Outubro.  Guardei a ideia por longos cinco anos. Foi no segundo semestre de 2010 que consegui finalmente escrever uma das partes do livro. Devo acrescentar que, nessa época, minha situação não estava muito diferente. Se no colégio já era difícil fazer algo com constância, imagina estando numa faculdade que me pedia uma série de vinte desenhos por aula. Fora que, nessa época, eu também fazia um curso de web design. E tinha aulas nos dois lugares todos os dias.
E hoje, não está nada diferente. Continuo estudando, precisando fazer provas e trabalhos, indo para aulas dos cursos de línguas. Eu não tenho condições de escrever todos os dias porque minhas outras obrigações (a de estudante e a de administradora da casa, coisa que continuo aprendendo a lidar) ainda existem. E, além de tudo, não sou uma máquina de inspiração diária. Os intervalos que tenho entre a escrita de um capítulo e a de outro podem durar alguns minutos como também alguns meses. Como os meus dois novos projetos, por exemplo. Para um deles, mastiguei uma possível ideia por dois anos. Apenas agora, estou conseguindo organizá-las em palavras. Quanto ao outro, o “tick” surgiu em um conto inacabado que fiz em janeiro de 2011. Em agosto de 2012, consegui definir o que eu queria, mas deixei tudo isso em banho-maria até que o esqueleto do primeiro projeto supracitado estivesse completo. E olhe que existem cinco capítulos do segundo prontos!


Foi então que eu concluí, embora com amargor, que eu não existo para escrever: escrevo para existir. É escrevendo que consigo me expressar, colocar um pouco da minha alma para fora, explicar para o mundo o que está aqui dentro e que não consigo externalizar por meio da fala. Logo, talvez eu realmente não seja uma escritora profissional. Talvez eu seja apenas uma alma inquieta, que precisa, vez ou outra, conversar um pouco por intermédio de um papel.  E, por isso, eu escrevo à manivela. Lentamente.

Comments

  1. Oi, Kamile.
    Então, te acompanho faz um tempinho… sou das leitoras insuportavelmente calada. E estou em um dilema parecido.

    Estou escrevendo meu primeiro livro. Já escrevi Fanfic e aos trancos e barrancos tento terminar meu texto, mas trabalho… estudo e tempo é uma coisa que não tem sobrado em minha vida.

    Queria escrever 4horas/dias, mas para isso teria que abdicar do sono ou da comida. hahaha

    Enfim, seu texto reflete absolutamente tudo da minha vida atual.

    Beijo!

    • Oi, Lorena, tudo bem? Obrigada pelo carinho, primeiramente!
      Desejo que você encontre em breve um tempinho para se dedicar mais aos seus livros também. Sei como o dia a dia turbulento atrapalha um pouco o nosso raciocínio criativo :/
      Boa sorte! Abraços e tudo de bom <3

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